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História - Evolução  

 

O que  pretendemos com este artigo é, acima de tudo, tornar mais conhecidas de todos, as origens desta terra onde os nossos antepassados lutaram para nos legarem este património que hoje nos orgulha e cuja história se remonta a tempos imemoriais.

Vamos pois, com dados rebuscados em velhos alfarrábios, começar a publicar aqui, a história de VILA CHÃ em pormenor.

Vila Chã, freguesia do Concelho e Comarca de Vila do Conde, pertence à diocese, distrito e relação de Porto. Tem como orago S. Mamede.                      

Vila Chã é um dos principais centros piscatórios do Concelho. Em anos de boa pescaria, o fisco chega a arrecadar muitas centenas de euros. Do mar (pescado, pilado e sargaço) vivem muitas famílias.     

É das raras, senão a única terra, onde houveram mulheres com carta de arrais, que partilhavam, quando era preciso, dos perigos do mar com os maridos ou irmãos.

A praia é muito visitada por pescadores desportivos. Está provida de dois faróis e sinal acústico, como meio de segurança.

É ainda esta freguesia importante meio agrícola e abastecedor das indústria de lacticínios.

Está ligada à Estrada Nacional de nº 13 (Porto – Valença) e ao Caminho de Ferro hoje linha do METRO  (Porto – Póvoa de Varzim),  por uma pitoresca estrada principal de 2,5km.

Embora a arqueologia e a toponímia não sejam disso verdadeiramente expressivas, o povoamento do território desta freguesia pode reputar-se anterior ao séc. XII, a julgar no que sucede nas freguesias imediatas nos campos arqueológico, documental e toponímico.

Apenas parece indiscutivelmente muitos séculos anterior à Nacionalidade o antigo nome de lugar MIRANCI (1258) ou MIRANTI, cuja significação e étimo não são claras.

O topónimo de Vila Chã é que se adequa perfeitamente a este território (“villa”) plano (“chã”) à beira mar, cortado de um pequeno ribeiro que corre junto da igreja de S. Mamede, de remota fundação, e com esta topografia também está de acordo o topónimo Gandra.

A primeira notícia que pode dar-se desta Vila Chã, embora os autores do género Pinho Leal (a principiar por este ou o seu continuador) a desconheçam, é do séc. XI. De facto, em 1033, uma dona notável da época, Vistrégia Galindes, que parece senhora desta “villa” (ou de parte dela, pelo menos) faz dela cessão a Guterre Troitosendes e sua mulher.

D. Ermento, aludindo-lhe deste modo: “inter Ave et Labrugia (rio) nominata Vila Plana et ave jacentia inter Mirazi (Mirance) et Moreirola et de alia parte Mola de Olibas (Modivas) alphe montis Crasto Bove território labrense et Portugal in litore maris”.

Esta verdadeira descrição panorâmica documental mostra a “villa” como vizinha de estância castreja notável, e assim pode aventar-se que a origem dela pode estar nesse castro.

Mirance (e por isso não Mirante) é já aqui referido e parece, pela forma antiga, provir de um nome pessoal Mirac(e)us, isto é, do seu genitivo “villa” Mirazi (Miraci), com o notável fenómeno de nasalação da tónica em razão da consoante inicial (Miraci>Miranci).

O documento é ainda notável por citar um “território labrense” (de Lavra, hoje, ainda designação de uma freguesia vizinha), mas sem realidade administrativa, simples referência devida
a qualquer facto que notabilizava essa “villa” (talvez o seu mosteiro) e que por isso servia para localizar outras).

A “villa” de Vila Chã havia sido dos avós (paternos?) de D.Vistrégia, a saber, D.Troitosendo (ou Tructesindo) e D.Gontilde (Guntilli), e passara a seus pais, D.Galindo e D.Vistrégia Galindes (a mãe chamada como a filha). A cessão ou venda de D.Vistrégia Galindes Galindes não envolvia toda a “villa”, mas apenas a parte da dona: “pelos seus termos,vicos e logos antigos,...a minha nação íntegra, assim em casas, culturas e recheio doméstico como em igreja: “sive in eglésias quantum nostra veritas est”. Como a dona apenas se refere a duas “villas” (Terroso e Vila Chã), é ponto assente, à vista desta referência, que já em Vila Chã devia existir a igreja de S.Mamede, igreja “própria” na origem (o que concorda com a situação posterior do padroado), estando de acordo com a elevada antiguidade do culto do respectivo titular, ainda hoje orago paroquial.

Os compradores, D.Guterre Troitosendes e D.Ermento, devem ser os senhores da “villa” de Varzim. As Inquirições de 1258 em Vila Chã, da “terra” da Maia, pela Inquirição “parrochianorum ecclesis Sancti Mametis ejusdem ville”dividem a paróquia em duas secções ou “villas”: a de Vila Chã propriamente, e a de Mirance (Mirante).

Na de VilaChã, existiam então vinte e um casais, assim distribuídos: oito do mosteiro de Vairão, sete do mosteiro de Roriz, um do de Moreira, dois de S.Simão da Junqueira, um de D.Maria de Baguim, outro de Pedro Ferreira e um Rui Sancada, todos por certo, fidalgos. Em todo o caso, entrava o mordomo da coroa na “villa” uma vez por mês a cobrar quatro dinheiros por casal, recebendo ainda deles “vida”; e sempre que o “mordomo novo” aí entrava, dava-se-lhe de cada casal um soldo.

Além disto, dava-se de cada um, por ano, uma galinha, para o rico-homem. A Inquirição na outra “villa” chamada “Miranci et est collacionis ecclesie Ville Plana” diz que in ipso loco” há dezoito casais, dos quais são quatro do mosteiro de Santo Tirso (cada um dos quais dava anualmente ao mordomo sete dinheiros) e dois de D. Maior Soares (talvez filha bastarda de D. Soeiro Peres “da Maia”), dizendo-se ainda o seguinte:“e treze casais foram de Fernão Bispo, e agora são dos filhos e netos dele; e daqueles casais de Fernão Bispo, deu um ao mosteiro da Lagoa; o mordomo da coroa entra nos casais de Santo Tirso  e costumava entrar em todos, mas desde que D. Maria Pais teve esse lugar em comenda, nunca aí entrou o mordomo (da coroa).

Já na Inquirição de Vila Chã propriamente se havia referido a “quintana de Miranci” como fundada antes uns vinte anos, para mais ,em lugar onde devia entrar o mordomo e desde a fundação da “quintã” (honra com paço) ”nunqua ibi entravit”.

As inquirições de 1290 da freguesia de S.Mamede de Vila Chã, explicam melhor o caso, apesar de muito mais posteriores a ele que as de 1258: “Em no lugar que chamam Miranti são dezanove casais, todos de mosteiros e todos foram de Fernão Bispo, e agora são de seus filhos e netos; “e Reimom Martins”, que foi seu genro de Fernão Bispo, deu uma herdade a D.Maria Pais “Ribeira” em que fizesse uma casa, em tempo de rei D.Sancho prestumeiro que lhe mantivesse esta vila em honra como era quando era de Fernão Bispo; e desde então honrou-a, que nunca hi ousou de entrar mordomo na herdade de Fernão Bispo, e intra em os outros de Santo Tirso, e não foram da sua avoenga; e por razão daquela casa, trazem ora seus netos de dona Maria Pais toda a villa por honra, salvo três casais e meio de Santo Tirso; em peso dizem as testemunhas que em tempo de el-rei D. Afonso pai deste rei, entrou aí o mordomo de D. Mendo, que tinha a “terra”, pelo conduito, e mandou rogar D. Maria Afonso a D. Mendo que lhe deixasse esses carneiros e deixou-lhos”.

Quer dizer que a honra de Mirante se tornara, pela comenda, verdadeiramente honra famosa  D. Maria Pais, a Ribeirinha, amante de D. Sancho I; e o aparecer ali D. Maria  Afonso percebe-se perfeitamente de se tratar de uma neta de dois amantes, pela filha que do rei teve a Ribeirinha, a saber, D. Teresa Sanches, que casou com D. Afonso Telo “Meneses” (o que povoou Albuquerque, como o caracterizam as linhagens medievais) e dele teve a dita D. Maria Afonso.

Quanto a D. Mendo, é ele o rico-homem D. Mem Rodrigues, de “Briteiros”, que raptara uma donzela de alta estirpe dos “Da Maia” (D.Elvira Anes), sendo simples infanção, e com ela casara, vindo tal facto, pelo valimento que teve com D. Afonso III a trazer-lhe a rico-homia da “terra”, o que explica aquele passo e que ele, efectivamente, figure, por aquele tempo, como tenente da Maia.

A posse pelos descendentes da Ribeirinha determinou que a chancelaria de D. Dinis respeitasse a honra de Vila Chã, a casa e as herdades, se as hi hão filhos de algo, este em honradas porque são de filhos de algo, enquanto forem filhos de algo; e todo o al seja devasso e entre hi o mordomo por seus direitos: tal foi a sentença dionísia sobre as inquirições locais.

Do destino da honra de Vila Chã, nada se colhe posteriormente, mas talvez não tivesse  atingido o fim da Idade Média. A freguesia foi sempre do termo da Maia (até à formação do moderno concelho de Vila do Conde) e como tal beneficiou do foral da Maia, dado por D. Manuel, em Évora, a 15 de Dezembro de 1519.

Quanto à igreja de S. Mamede, paroquial, ela já não era nova no século XIII, e o mosteiro de Roriz que possuía então vastas possessões na paróquia, talvez doação de fidalgos antigos (séc. XI–XII), dele padroeiros era o padroeiro da dita igreja talvez pela mesma via e proveniência, pois lê-se nas inquirições de D. Afonso III a propósito da pergunta feita ao próprio pároco de 1258, padre Gonçalo Mouro, sobre quem nomeou (“quis presentavit eum ad ipsam ecclesiam”), que o apresentara “ prior de Roriz” ao bispo do Porto para confirmação.

Como tal mosteiro veio a ser da Companhia de Jesus, assim se compreende que a igreja de Vila Chã passasse aos jesuítas e, deles pela extinção, à Universidade de Coimbra, e por fim, ao padroado real, rendendo no século XVIII para o pároco uns 70 mil réis anuais.

Nesta freguesia existiu um forte cuja origem é curiosa. Depois da Campanha do Rossilhão, quando Espanha se aliou à República Francesa contra a Inglaterra, o governo português viu-se em grandes dificuldades para manter a neutralidade.

Ora, em frente da costa desta freguesia existia um rochedo denominado da Aguilhada, separado da terra por um canal, onde os barcos de guerra espanhóis aguardavam a oportunidade de atacar de surpresa os navios ingleses. Os incidentes repetiram-se, como de resto por toda a costa portuguesa.

Em Agosto de 1796, o Príncipe Regente D. João determinou ao general Correia de Sá que construísse um fortim junto do canal da Aguilhada, para evitar incidentes, que punham em perigo a neutralidade do país.

A construção foi feita sobre a areia, com carácter provisório. A bateria ficava em plano mais alto, para onde se subia por uma rampa de pedra; a sua forma era semi-circular com parapeitos de terra, revestidos de pedra de 6 palmos de alto do lado de fora e 8  por dentro da barreira e 20 de largura.

Existiam abertas 5 canhoneiras guarnecidas por outras tantas bocas de fogo. Um pouco à retaguarda e em frente da rampa foi construída uma casa que servia de paiol, à esquerda, e de quartel do outro lado. Todo o fortim estava cercado por estacaria, do lado do mar por pranchas de madeira fixando as areias e na gola por um muro de fortes pranchas.

Em volta do paiol existia, também uma defesa de estacaria. As plataformas de bateria eram lageadas e os terraplanos empedrados. A construção deste fortim, se bem que não fosse de grande poder, representava, contudo, uma garantia contra incidentes entre barcos estrangeiros.

Acabada a Guerra Peninsular não mais se falou neste forte, que no entanto, continuou artilhado. De 1823 a 1826 ainda conservava 2 peças de bronze, mas em 1831 tinha apenas 1 peça de bronze, de calibre nove, e dependia da Praça de Matosinhos.

Durante a dominação miguelista e até ao desembarque das tropas liberais foi guarnecido pelos soldados de D.Miguel, sendo depois abandonado e saqueado pelo povo. Em 1834 estava habitado por veteranos, sendo pouco depois abandonado. Após as campanhas de D.Miguel nunca mais a fortificação mereceu cuidados, ficando completamente abandonada.

Pouco a pouco a acção do tempo e a fúria do mar desmantelaram a velha bateria e o quartel. Em 1840 conservava ainda em bom estado o parapeito da bateria, apesar de se encontrar completamente ao abandono, mas dez anos depois, em 1850, sendo a sua posição considerada de certo valor pelo oficial que a inspeccionou, já do quartel só existiam as paredes; o paiol estava com a abóbada arruinada e não possuía portas nem janelas. A bateria ainda se conservava em sofrível estado, apesar de as lages da plataforma haverem sido arrancadas e roubadas pelo povo.

Mais tarde, em 1861, ao ser de novo inspeccionado, já a ruína entrara totalmente nele. Desde então as notícias que existem deste antigo fortim são bastante escassas, ou quase não existem. Na actualidade restam alguns vestígios dos alicerces.

(Cf, Carlos Pereira Calixto, Forte e Facho de Vila Chã (Vila do Conde), in Defesa Nacional, nº 114, 1943)

Artigo escrito por Amadeu Gonçalves dos Santos

 
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